RECURSOS HUMANOS

Saúde mental no trabalho: uma responsabilidade partilhada

Saúde mental no local de trabalho: uma perspetiva psicodinâmica

Passamos uma parte significativa da nossa vida a trabalhar. Mas o trabalho não é apenas uma atividade económica: é também um espaço de relações, reconhecimento, identidade, realização e, por vezes, de conflito e sofrimento psicológico.

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Saúde mental no trabalho e relações profissionais num escritório

Em Portugal, esta realidade assume uma dimensão particularmente relevante. Segundo o relatório Prosperidade e Sustentabilidade das Organizações, publicado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), 33% dos trabalhadores portugueses referiram ter sido afetados por problemas como stresse, depressão ou ansiedade devido ao trabalho, uma percentagem superior à média da União Europeia, situada nos 27%.

O impacto não se limita ao sofrimento individual. A OPP estima que o absentismo e o presentismo associados ao stresse e aos problemas de saúde psicológica possam representar até 8 dias e 15,8 dias de trabalho perdido por trabalhador, respetivamente. Para as empresas portuguesas, a perda de produtividade daí resultante poderá atingir €5,3 mil milhões por ano.

33 %

dos trabalhadores portugueses referiram ter sido afetados por stresse, depressão ou ansiedade devido ao trabalho.

Ícone dinheiro

€5,3 mil milhões

por ano é a perda de produtividade para as empresas portuguesas.

30 %

de redução nas perdas seria possível com a prevenção e promoção da saúde psicológica.

O trabalho também mobiliza a nossa história emocional

Quando pensamos em saúde mental no trabalho, falamos frequentemente de stresse, ansiedade, burnout, excesso de trabalho ou dificuldade em conciliar a vida pessoal e profissional.

Todos estes fatores são importantes. A própria OPP chama a atenção para riscos psicossociais como as exigências cognitivas e emocionais, o trabalho por turnos, o assédio, a violência laboral e a discriminação. Acrescenta ainda fatores como a intensificação do ritmo de trabalho, a insegurança profissional, a falta de autonomia, a ausência de reconhecimento e um suporte social insuficiente.

Mas uma perspetiva psicodinâmica convida-nos a acrescentar outra pergunta: porque é que determinadas experiências profissionais nos afetam da forma como afetam?

A psicologia psicodinâmica procura compreender de que forma a nossa história emocional, as relações significativas e os processos inconscientes influenciam a maneira como sentimos, pensamos e nos relacionamos. Ajuda-nos a perceber como padrões construídos ao longo da vida podem reaparecer nas relações atuais — incluindo no contexto de trabalho.

Não deixamos a nossa história emocional à porta quando entramos no trabalho.

A forma como lidamos com autoridade, crítica, competição, reconhecimento, dependência, conflito ou rejeição foi sendo construída ao longo da nossa história e pode reaparecer, de maneiras subtis, nas relações profissionais.

Um superior muito crítico pode despertar sentimentos que ultrapassam aquela relação concreta. A necessidade constante de reconhecimento pode tornar alguém particularmente vulnerável à ausência de feedback. A dificuldade em estabelecer limites pode levar uma pessoa a aceitar sucessivamente mais responsabilidades, mesmo quando já se encontra emocionalmente esgotada.

Da mesma forma, os conflitos entre colegas podem envolver não apenas diferenças objetivas, mas também sentimentos de rivalidade, insegurança, exclusão ou necessidade de aprovação.

Quando trabalhar bem significa nunca poder falhar

Algumas pessoas desenvolvem uma relação com o trabalho marcada por uma enorme exigência interna. Sentem que têm de ser permanentemente competentes, disponíveis e produtivas.

Por detrás dessa exigência podem existir questões mais profundas: o medo de desiludir, de perder reconhecimento, de falhar ou de não ser suficientemente bom.

Neste contexto, descansar pode provocar culpa. Dizer “não” pode ser vivido como egoísmo. Pedir ajuda pode ser sentido como uma demonstração de fraqueza. E cometer um erro pode assumir uma dimensão emocional muito superior à importância objetiva desse erro.

O problema deixa então de ser apenas a quantidade de trabalho. Passa também pela relação que a pessoa estabelece consigo própria enquanto trabalha.

As organizações também têm uma vida emocional

A OPP sublinha que o bem-estar está associado a dimensões como sentir-se apoiado e pertencente ao grupo, receber reconhecimento, trabalhar num contexto psicologicamente seguro, conseguir conciliar a vida profissional e pessoal e encontrar autonomia, significado e propósito no trabalho.

Uma leitura psicodinâmica permite aprofundar esta ideia: uma organização não é apenas uma estrutura funcional; é também um sistema de relações humanas.

As organizações desenvolvem culturas emocionais. Há contextos onde é possível reconhecer dificuldades, pedir ajuda, discordar ou cometer erros sem sentir que isso ameaça o valor pessoal ou profissional de alguém. Noutros, podem predominar o medo, a competição, o silêncio, a desconfiança ou a necessidade permanente de demonstrar competência.

As organizações também precisam ser capazes de conter a ansiedade. A incerteza é inevitável, especialmente em ambientes complexos ou em rápida transformação. Líderes que reconhecem a incerteza com honestidade, ao mesmo tempo em que oferecem estrutura e direção, ajudam a manter a estabilidade emocional.

(Kets de Vries, 2026)

Por isso, promover saúde mental no trabalho não pode significar simplesmente ensinar cada trabalhador a “gerir melhor o stresse”. A própria OPP salienta que um local de trabalho pouco saudável pode produzir níveis importantes de stresse e mal-estar e contribuir para o aparecimento ou agravamento de problemas de saúde psicológica.

Nesta perspetiva, a saúde mental no trabalho é uma responsabilidade partilhada. O indivíduo pode desenvolver formas mais saudáveis de lidar com as suas dificuldades, mas as organizações também precisam de criar condições que favoreçam a segurança psicológica, o reconhecimento, a autonomia, o sentido de pertença e relações profissionais suficientemente seguras.

Cuidar da saúde mental é também compreender

Por vezes, o sofrimento profissional pode ser um sinal de que algo precisa de ser compreendido — não apenas no ambiente de trabalho, mas também na forma como nos relacionamos com a exigência, a autoridade, o reconhecimento, o sucesso e o fracasso.

A psicoterapia pode proporcionar um espaço onde estas experiências possam ser pensadas com maior profundidade.

Porque cuidar da saúde mental no trabalho não significa simplesmente aprender a suportar melhor a pressão.

Significa também compreender o que nos acontece nas relações profissionais, porque determinadas situações nos afetam tanto, que padrões tendemos a repetir e de que forma podemos construir uma relação mais livre, saudável e sustentável com o trabalho.

Cuidar da saúde mental também é um investimento

Existe ainda uma dimensão económica que não deve ser ignorada.

Segundo as estimativas apresentadas pela OPP, a perda de produtividade associada ao absentismo e presentismo relacionados com stresse e problemas de saúde psicológica poderá representar até 1,4% do volume de negócios das empresas portuguesas.

A prevenção e a promoção da saúde psicológica poderiam reduzir estas perdas em pelo menos 30%, correspondendo potencialmente a cerca de €1,6 mil milhões de poupança por ano.

O relatório cita ainda investigação segundo a qual o investimento em saúde psicológica pode gerar um retorno de €5 por cada €1 investido, existindo estudos sobre intervenções específicas que apontam para retornos ainda superiores.

Assim, cuidar da saúde mental das pessoas não deve ser entendido apenas como uma resposta ao sofrimento quando este já existe. É também uma dimensão da qualidade das relações, das lideranças e da própria sustentabilidade das organizações.

Sobre o Autor

Bernardo Couto

Psicoterapeuta | Diretor Clínico da Intencionalis – Clínica de Psicoterapias

Bernardo Couto é psicoterapeuta e Diretor Clínico da Intencionalis – Clínica de Psicoterapias. Neste artigo, apresenta uma perspetiva psicodinâmica sobre a saúde mental no trabalho, explorando a influência da história emocional, das relações profissionais e da cultura organizacional no bem-estar psicológico.

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Consentimento

Fontes e referências

Ordem dos Psicólogos Portugueses (2023). Prosperidade e Sustentabilidade das Organizações — Relatório do Custo do Stresse e dos Problemas de Saúde Psicológica no Trabalho, em Portugal. As estimativas económicas do relatório referem-se às empresas não financeiras, excluem a Administração Pública e contabilizam custos indiretos associados ao absentismo e ao presentismo.

Referência adicional: Kets de Vries (2026) Trust: the invisible architecture of organizations in  https://medium.com/@manfred.ketsdevries_62226/trust-the-invisible-architecture-of-organizations-a57a3f0a24a8 

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